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“If there’s anything more important than my ego around, I want it caught and shot now.” – Douglas Adams, ‘The Hitchhikers Guide To The Galaxy’

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Entorpecimento

Posted on | Junho 30, 2006 | 14 Comments

A rapariga estava sentada numa cadeira a um canto da oficina, com uma toalha encostada ao peito. Ele tinha dito, agora vá ali sentar-se que eu, para ver isto com atenção, preciso de espaço à volta da mesa. Ela ainda tinha perguntado, um pouco a medo, mas e não faz mal estar aqui com tudo aberto desta maneira e ele, que não, que não, não havia razão para se preocupar, deixe lá a toalha encostada e vá fazendo pressão se o sangue fôr muito. Eu já lhe colo isso tudo outra vez e meti-lhe um coagulante, não vai ter aí nenhuma hemorragia grave. Deixe-me cá ver isto agora, se faz favor.

A rapariga não se sentia muito tranquilizada, mas lá foi ficando, com a toalha encostada e alguma curiosidade. Ia espreitando enquanto ele virava daqui e virava dali e mexia com pinças e enfiava tubos; mas quando lhe espetou uma agulha doeu-lhe e disse ai. E assustou-se com aquela ligação, ali sentada ao canto tão separada do resto.
Está a doer? perguntou ele, mas é mesmo só um bocadinho, tem que aguentar. Isto é perfeitamente normal, não se preocupe. Esteve aí dentro toda a vida, é natural que lhe doa, mesmo estando aqui agora na minha mão. Isto não pense lá que é só cortar que se separa tudo; aliás, isso é um dos problemas para lhe pôr isto como deve ser, outra vez. Se não lhe doesse a si, eu dava-lhe aqui umas pancadas e mais uns anestésicos e ficava como novo, mas está a ver, não pode ser.

Por isso é que eu o vim consultar, disse ela. Queria o melhor especialista.

Isso pode ter a certeza que sou, mas olhe, está mesmo num mau estado…não tem tomado conta dele em condições pois não? Não diga nada, eu estou aqui a ver. É sempre a mesma coisa, só cá vêm quando já está tudo quase sem arranjo. Mas eu vou fazer o que conseguir.

A rapariga agradeceu numa voz sumida. Sentia-se agora um bocado longe e dormente, como se a preocupação que a tinha ali levado, àquela oficina, garantida por toda a gente como a melhor, se estivesse a diluir muito lentamente.

Não faça isso, acorde, alertou-a ele. Tem que estar atenta! Veja lá isso que não posso estar sempre a chamá-la! Se se deixa dormir isto aqui pára!

Ela deu um salto e o sangue começou a correr com mais força. Fez pressão e ele avisou que era melhor assim, mas para se manter calma senão aquilo desatava aos saltos e era impossivel depois fazer o diagnóstico.
Prosseguiu com o exame.

Olhe aqui, está a ver esta parte? Tudo entupido! Mas como é que vocês deixam isto chegar a este estado, eu não percebo mesmo. Tudo mas tudo entupido! Já viu isto? Sabe o que é isto? Ah pois claro, não sabe, pois não sabe, por isso é que os deixa assim a entrarem desta maneira. Olhe bem para esta porcaria! Isto é um inferno dos grandes para limpar e olhe que nem sei se se consegue tudo, se eu lhe metesse um ácido, claro, era fácil, mas e o resto? Ficava tudo carcomido, vou ter que lhe, olhe nem sei bem! É dos piores que me passaram pelas mãos. Mas você não sabe mesmo? Olhe lá bem para este bocado, ainda se vê bem…ah pois é! Claro que é um desgosto! E este aqui? Do mais negro que já vi. Já viu que pegajoso? Isto cola-se a todo o lado! Você faz colecção estou a ver. É que tem aqui desgostos sabe-se lá de quando. Eu vou dizer-lhe: isto vai ser mesmo muito complicado limpar esta, desculpe lá o termo, merda toda.

Por isso é que vim ao melhor especialista coraçãozeiro, respondeu a rapariga.

Pois pois, mas isto assim não vai ser possível. Olhe vai ter que o deixar cá. Eu sei, é pedir muito, é uma grande maçada para si agora andar por aí sem coração, mas também, olhe, no estado em que ele já estava, sinceramente lhe digo: ninguém nota. Eu colo a pele e fica como nova. Volte cá para a semana que eu entretanto vou ver o que posso fazer.
E não se deixe entorpecer.

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Comments

14 Responses to “Entorpecimento”

  1. Dulce
    Junho 30th, 2006 @ 1:33

    Que imaginação a tua, Cat. Sangrenta, arrepiante. Mas é verdade, deixamo-lo chegar ao pior estado possível. Até já nem se notar que existe…

  2. catarinia
    Junho 30th, 2006 @ 1:42

    Genial!
    É que nem me ocorre outra coisa… Genial!

  3. TheOldMan
    Junho 30th, 2006 @ 7:39

    E não te emprestaram um enquanto o outro estava em reparação?

    Devias ter protestado…
    ;-)

  4. Apenas mais um
    Junho 30th, 2006 @ 9:15

    Desta vez interrompo a pausa

    Apenas para vos recomendar, caso também tenham este hábito de um textito com o café da manhã, que hoje o tomem aqui. Delicioso! … sem mais palavras…

  5. Apenas mais um
    Junho 30th, 2006 @ 9:17

    Desta vez interrompo a pausa

    Apenas para vos recomendar, caso também tenham este hábito de um textito com o café da manhã, que hoje o tomem aqui. Delicioso! … sem mais palavras…

  6. rmc
    Junho 30th, 2006 @ 9:28

    Acho que o negócio dos ‘corações de substituição’ está largamente subvalorizado e no entanto, vejo tanto potencial.

  7. Rita Q.
    Junho 30th, 2006 @ 9:28

    Ainda estava na garantia?
    (é que se não é uma pipa de massa)

  8. Emiéle
    Junho 30th, 2006 @ 9:29

    Magnífico, Cat!!!
    Tem tudo o que eu gosto. Muito bem escrito, extremamente bem escrito, e uma lindíssima metáfora (não é ‘metáfora’, eu sei, mas não me lembro agora exactamente que figura de estilo é…)

    (quando era pequenita li uma vez uma história – nem sei de quem – de um “homem com a cabeça de papelão”, também tinha mandado a dele arranjar porque pensava demais, emprestaram-lhe uma de papelão para não andar por aí sem cabeça, e ele deu-lhe bem melhor com essa; a história acabou tendo ele optado por ficar sempre com a de papelão que era bem mais cómodo do que ter de pensar…)

  9. Carlos a.a.
    Junho 30th, 2006 @ 10:01

    Entorpecimento, talvez, mas não no texto..

  10. aNa
    Junho 30th, 2006 @ 10:17

    fabuloso!!

  11. bill
    Junho 30th, 2006 @ 10:32

    A alegria vem das tripas.

  12. catarina
    Junho 30th, 2006 @ 11:14

    Obrigada a todos. Eu já respondo…agora estou a espumar com a notícia de cima.

  13. mana
    Junho 30th, 2006 @ 18:21

    depois dá-me o número de telefone do gajo. :)

  14. Fada do mar
    Julho 5th, 2006 @ 23:51

    A convite do Eufigénio, vim aqui tomar o café da manhã e foi, de facto, uma delícia. Confesso que já tinha andado por aqui e que voltarei mais vezes porque me surpreendo sempre que volto; gosto do que leio; até já fiz um link (desculpe não ter pedido autorização) lá no espaço dos instantes.
    Ah, é verdade, eu consegui o número de telefone do tipo, marquei revisão e… zás: cá está o meu coração reparado e pronto para mais desgostos.
    Obrigada, Catarina, pela preciosa ajuda. Eu já não sabia mais o que fazer. Só não sei como não me lembrei de visitar um “especialista coraçãozeiro”… ;-)

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